Memórias de Um Músico Macaense

por Rigoberto Rosário Jr.

(com Cecília Jorge em Macau)

Revista Macau Junho 1998


A identidade colectiva de Macau é um enorme mosaico de memórias repartidas, de vivências próprias e herdadas, em que a contribuição de cada “nativo” é necessária e fundamental

EM Macau, como em muitas outras paragens, quando e enquanto a vida flui sem grandes angústias porque as ambições individuais, em geral, são apenas à medida do atingível, a população entrega-se à música, à dança, ao desporto e ao convívio festivo, que não dispensa uma componente de requintada (e farta) gastronomia.  Referências que nos descrevem a sociedade macaense ao longo dos tempos — sobretudo as que partem de relatos de forasteiros, portugueses ou não —, dão-nos conta de uma vida corriqueira de gente simples que cultivava o viver prazenteiro e despreocupado, quando possível, num ambiente familiar e bairrista. Havia, como é evidente, clivagens forçadas pelo enraizado espírito classista, e os convívios seriam mais ou menos elitistas e intelectualizados. Era o culto da finesse em concertos de salão, ópera e teatro seguidos de lautas ceias servidas por criados de libré, ou da franca e jovial balbúrdia popularucha das festas familiares e bodas, em bazares de caridade, récitas, e desfiles e “assaltos” carnavalescos.  Nisso, havia como que um “entendimento”: o consenso quanto à necessidade de “gozar” bem os Micaréme, em festas que agrupavam os moradores de cada freguesia nos diversos clubes e associações, havendo muitos que, “a saltitar”, frequentavam quase todas, para não desperdiçar a folia. A comida era confeccionada por grupos de veteranos — cuja história ainda está para ser contada — e a música proporcionada por amadores munidos de guitarras, bandolins e violinos, agrupados em “tunas” de improviso que tocavam modinhas.

Muito amadorismo, uma forte propensão para a música, e toda a boa vontade do Mundo, com casos excepcionais de talento, que “músico” e “maestro”, aliás, eram denominações utilizadas em Macau num contexto muito especial. A maior parte dos que se fala neste relato são “músicos” que tocam de ouvido e foram aprendendo, de forma empírica e consoante calhava, ao sabor da sua vontade, as técnicas ensinadas de passagem pelos veteranos. Dispensavam o solfejo e eram incapazes de “ler” uma partitura. De admirar e louvar, pois, a celebridade que alguns alcançaram.

Esta é a primeira de uma série de três partes da “memória” de um dos participantes neste cenário de Macau. “Músico” aos treze anos, compositor popularizado nos “Thunders” com hits como “Macau”, “A Minha Tristeza”, “She’s in Hong Kong”, Rigoberto, hoje quarentão e no Brasil, conta-nos como era. 

Cecília Jorge

(Rigoberto nos estúdios da TVB em Hong Kong 1968)

 

VALENDO-ME da memória dos mais idosos, comecemos pela década de 30 deste século. Além de “tunas” carnavalescas, existia também uma banda de instrumentos de sopro, a da Câmara Municipal, que era dirigida pelo maestro Constâncio José da Silva (macaense), a qual dava concertos quintas-feiras à tarde e sábados à noite, num coreto que existia no “passeio público”: zona ajardinada que se estendia da marginal de S. Francisco até à Flora. O coreto, demolido em 1935, ficaria entre os actuais Hotel Estoril e Escola Sir Robert Ho-Tung, onde é hoje a Rua Ferreira do Amaral. Além dessas apresentações corriqueiras, acompanhava também as procissões do Senhor dos Passos, de Santo António, Nossa Senhora de Fátima e outros. Posteriormente, sucedeu ao referido maestro o Placé (outro macaense), pai do então jovem pianista Pito Placé.

 

Os primeiros cabarés

Nas décadas de 30 e 40 conheciam-se já dois cabarés em Macau: um no Hotel Central (construído em 1928, onde funcionava também um dos casinos) e outro no Hotel “Grand” (o Kuoc Chai) inaugurado em 1941, ambos situados na Avenida Almeida Ribeiro, onde se pagava 1 pataca para dançar durante uma hora com as taxi-girls (nome inspirado, talvez, na “bandeirada”). O preço de aluguer da “partenaire” encareceu pouco depois, passando a orçar os 10 avos por número musical.

A legalização das casas de jogos e lotarias será contemporânea da fundação de Hong-Kong, mas foi só em 1934 que o governo de Macau concedeu o monopólio dos casinos à Tai Hing Company, propriedade de dois cidadãos chineses da província de Kwangtung (Guangdong), situação que perdurou até 1962, quando a S.T.D.M. venceu a concorrência, ficando, até aos nossos dias, com o exclusivo da exploração do jogo em Macau. 

Além desses hotéis da elite e dos casinos da época, existia também o Hotel Riviera que foi demolido em 1971 para dar lugar a um edifício-sede da empresa chinesa Nam Kwong. Esse hotel, inaugurado em 1928, num edifício de traça colonial que datava do século passado (onde funcionaram o New Macau Hotel e o antigo Hing Kee), na esquina da Avenida Almeida Ribeiro com a Rua da Praia Grande, perdurou na memória de muitas gerações de macaenses. 


O Riviera possuía um restaurante bastante amplo no seu rés-do-chão, que a gerente Olga Pacheco da Silva queria transformar em salão de dança, daqueles existentes nos grandes hotéis de “países do primeiro mundo”. Só que também queria manter a ambiência familiar, pois era o único do género no território  Para tal, a Olga teria que contratar  uma boa orquestra de Hong Kong, porque não havia nenhuma disponível em Macau. Foi então apontada a orquestra de Art Carneiro (“Art” de Artur, pianista e maestro), com músicos filipinos, e que na altura tocava no Península Hotel de Kowloon — ainda hoje o mais emblemático e luxuoso de Hong Kong.

Mas porque logo ele, se nos outros dois hotéis do território já havia bands de filipinos? Ading Monsalud e sua banda actuavam no Hotel Central e o Abel com seus rapazes no “Grand”. Não existiria nenhum músico profissional português em Macau ou naquelas regiões? Pois sim! A escolha desse maestro deveu-se precisamente ao facto de, além de ser um bom profissional, descender de portugueses de Xangai. 

Surgiu assim o primeiro músico português (profissional da noite) em Macau. Desconheço se para além de filipinos e português havia outras nacionalidades, nos demais membros da orquestra, mas providenciaram música dançante por um longo período, naquele ambiente onde os casais se podiam divertir sossegadamente.

Perante o sucesso de Art Carneiro, outro pianista macaense, famoso nas tunas, quis também formar o seu próprio agrupamento com a finalidade de se profissionalizar. Chamava-se Alderico Viana e recrutou outros conterrâneos: o Américo Vital (oriundo de Timor, mas considerado “macaense de coração”)o Anano Albuquerque, o Luiz Manhão, o Finfa Fernandes e outros. Os ensaios decorriam na residência do próprio Alderico, situada na Travessa da Misericórdia quase a desembocar no Largo do Senado (onde, por coincidência, também ensaiámos passadas algumas décadas). Depois de muito preparo, o primeiro conjunto macaense de música, digamos,“para cabaré” começou a apresentar-se em festas particulares até ser contratado pela gerência do Hotel Central, substituindo a banda do filipino Ading. Eis a primeira banda de músicos “nativos” nas noites de Macau.


edifício onde se localizou o hotel Riviera, a partir dos anos 30


Ainda o mundo andava mal refeito da primeira Grande Guerra e apareciam já indícios de um novo conflito mundial. Em 1934, Adolf Hitler tornava-se chanceler da Alemanha. Em 1936, o Presidente Roosevelt dos Estados Unidos da América era reeleito por ter conseguido recuperar financeiramente o seu país. Começavam as invasões das tropas alemãs na Europa ocidental...  Posteriormente, os militares japoneses lançaram-se na conquista da Ásia, ocupando as Filipinas, a Indonésia, a Malásia, a Birmânia, e por fim a China, caindo sobre a cidade de Hong-Kong a apenas duas semanas do Natal de 1941.  

Alderico Viana tinha-se estabelecido então, temporariamente, na cidade de Cantão com a finalidade de progredir, quer em termos financeiros quer também de experiência, mediante o contacto com os outros artistas estrangeiros que ali trabalhavam, e Macau ficou sem a sua primeira banda macaense.

Portugal era um país neutro nesse segundo conflito internacional, o que manteve Macau fora da mira das balas e das bombas, salvo em alguns incidentes que foram reflexo da permanência dos japoneses neste território. Mas foi grave e muito doloroso o problema da escassez de alimentos, face ao embargo dos transportes e carregamentos marítimos, e também o crescente número de refugiados que confluíam de Hong Kong e de vários pontos da China para uma cidade tão pequena. Eram cidadãos portugueses e de outras nacionalidades, muitas raças e credos. Talvez por isso, as festas carnavalescas e os cortejos de rua em Macau tivessem abrandado. A própria ambiência deixara de ser a mesma. Não havia espírito festivo que resistisse perante o sofrimento dos recém-chegados, contrariamente à época da I Guerra Mundial que não desalentou a população nativa, já que o conflito se passava longe.

Hotel Central, um dos primeiros arranha-céus de

Macau, com salas de jogo e cabaré

Os desafortunados foram todos acomodados, ainda que em condições precárias, em dois locais improvisados aos quais se deu o nome de Centros de Refugiados, tais como um prédio de dois andares, que se situava na Calçada da Gamboa, à esquina da Calçada do Tronco Velho, e em barracões, numa zona descoberta que ficava nas proximidades do bairro Tamagnini Barbosa. Como o número de refugiados fosse ultrapassando as dezenas de milhar, e os dois locais se tornassem insuficientes para o seu abrigo, o Clube de Macau cedeu a sua sede, e adaptou-se o Hotel Bela Vista.


A cantar se espantam males

Apesar do infortúnio, os refugiados eram pessoas alegres e de espírito festivo, com imensa capacidade de “dar a volta por cima”— reflexo da vivência nas suas cidades de origem. E traziam a música nas veias. Constrangidos, ao que parece, por ocuparem o Clube de Macau, que era um dos poucos locais de lazer dos nativos, insistiram em organizar bailes aos fins-de-semana, a fim de lhes levantar a moral e ajudar a revitalizar a vida social da cidade, perante as tristes notícias que chegavam da Guerra do Pacífico através das rádios e jornais.

Aí, demonstraram de facto as suas qualidades de bons dançarinos, bons músicos e de gente alegre. Os bailes eram animadíssimos e concorridíssimos. A comida e a bebida escasseavam, o que era perfeitamente compreensível…

Por seu lado, o Alderico Viana continuava na cidade de Cantão, assim como o outro pianista macaense, O Pito Placé. Não havia músicos profissionais macaenses no território. Alguns amadores que integravam as várias tunas carnavalescas foram aos poucos abandonando os seus instrumentos musicais, mas outros tentavam aperfeiçoar as suas técnicas, para singrar na carreira artística.

Foto mais acima: Os rapazes das tunas transitavam de umas para as outras, a bem da música e da animação pública.
Foto acima: Maco Amante, Mário Nogueira, Leão, irmãos Siqueira, Chiquito Gracias e Domingos Assunção


Os bailes clubistas

Além dos hotéis citados e do Clube de Macau, existia também a União Recreativa Macaense (vulgo, Clube Macaense), sediado por detrás do edifício dos Correios e que mais tarde, ocupou uma casa maior, no bairro da Areia Preta, onde funcionava o “Clube Melco”. O desenvolvimento do bairro levou à

demolição do clube nos anos 70.

Na época em que o clube pertencia à MELCO (Macau Electric and Lighting Co.), os seus sócios eram todos funcionários da empresa e às quartas--feiras trabalhavam apenas meio turno, para poderem desfrutar dos programas de lazer que a sua direcção lhes oferecia. Foram organizados bailes aos sábados, ao som de um novo conjunto musical macaense formado pelos próprios funcionários. Esse era dirigido pelo Bernardo Rosário, e nele tocavam o seu filho Demétrio e o Américo Vital (que não acompanhara Alderico Viana a Cantão). Eram semi-profissionais, só actuando nas festas da MELCO.

Quanto ao Hotel Riviera, terminada a Guerra, a Olga Silva deixou o cargo de gerente a Carlos Gomes (meu avô materno), que fora vice-cônsul da França em Shameen, na China.

Com o agravar das dificuldades durante a Guerra, a orquestra de Art Carneiro deixou Macau e assim, para preencher o palco vazio do Riviera e “reanimar” a população, o meu avô mandou vir de Hong Kong a orquestra filipina do Lu Vito, à falta de profissionais portugueses, quer a nível local quer em Hong-Kong. Mas à medida que os refugiados iam conseguindo empregos em Macau, começaram também a frequentar o recinto de dança do Hotel Riviera, tornando-o ainda mais animado do que no passado. A orquestra do Lu Vito era um sucesso. E chegou depois a ser convidada a juntar-se à banda cubana de Xavier Cugat, onde actuava a famosa Abbe Lane (cantora e actriz de Hollywood), e acompanhou o quarteto americano “the Inkpots” durante as suas apresentações em Macau.

Todos esses artistas de renome internacional foram trazidos cá pelo empresário macaense, recentemente falecido, Alberto Dias Ferreira (que a comunidade alcunhava de “Ministro”).

Após algum tempo na cidade de Cantão, o Pito Placé (filho do ex-maestro da banda da Câmara Municipal) regressou a Macau com o seu sexteto para substituir Lu Vito no Hotel Riviera. Tornou-se então o segundo músico português a actuar naquele estabelecimento.

Foi também nessa altura que numa das pontes-cais de águas barrentas do Porto Interior desembarcou Fred Abraham, trazendo consigo técnicas que foi transmitindo aos macaenses interessados na profissão, num intercâmbio que sempre marcou a cena musical. Tocou piano e cantou em vários locais da cidade, durante muito tempo, encantando o público apreciador de música romântica.

Apesar da II Guerra Mundial ter terminado em 1945, foi só no final da década que cessou o fluxo de refugiados provenientes das cidades vizinhas. Nessa leva, chegaram Justo Sequeira (meu tio-avô materno) e sua família, que também incluía músicos de bandolim e viola. Ensaiavam na Calçada do Monte, onde moravam numa casa modesta mas fora dos centros de refugiados, pelo que eram considerados privilegiados. Não chegaram a actuar como músicos profissionais apesar de terem condições para tal, porque optaram pelos empregos regulares que conseguiram em Macau. Além dos Sequeiras, havia ainda os Silva (Roberto, Gilberto e Cecília), naturais de Macau e que eram ensaiados pelo seu pai.


Noites dançantes ao luar

Nessa época, existia já a Piscina Municipal (construída em finais dos anos 30) que englobava o espaço anexo, transformado desde 1965 em Hotel Estoril. A piscina não sofreu mudanças arquitectónicas,

mas o anexo não passava então de uma construção de dois pisos: um rés-do-chão com duas escadas laterais direccionadas para um terraço. No piso superior funcionava uma pista de dança e no inferior operava um dos casinos da Tai Hing Company.

Para animar as noites estivais, de luar enriquecido com lâmpadas coloridas, contrataram a banda do Mário Vasquez, um filipino que se deixou ficar em Macau mesmo depois de mudar de profissão na década de 60. Não se podia chamar exactamente cabaré ao recinto, embora também não fosse

classificável como de “ambiente familiar”, dada a sua

O Hotel Estoril (ao fundo, à direita) em 1965. Localiza-se próximo do bairro do Tap Siac
e foi ponto de passagem de vários agrupamentos locais

frequência habitual: homens casados, ou não, com as respectivas amantes. O “longe da vista” da sociedade. E pouco seguro, ao que parece, porque

até rajadas de metralhadoras ali houve, no passado, por razões da política chinesa…


A era do rock and roll

No início dos anos 50, à luz da revolução industrial nos Estados Unidos da América e na Europa, assistia-se a um desenvolvimento sem precedentes na produção de mercadorias, proporcionada pelos novos avanços tecnológicos e científicos.

Também o comércio em Macau começou a publicar anúncios nos jornais e a expor nas montras essas mercadorias e novidades, apelando ao consumismo.  Os electrodomésticos vinham finalmente substituir os fogões-a-lenha e pesados ferros de engomar “a carvão”. Aquecedores de ambiente, ventiladores menores e de modelo mais avançado, aparelhos de rádio com revestimento de plástico (graças à descoberta do petróleo e seus derivados), gravadores de bobine magnética, guitarras com captadores eléctricos.

Em Macau apareceu também o ukelele havaiano, instrumento musical com formato de uma viola, mais pequena e com quatro cordas de nylon (significando “pulga saltitante” no idioma havaiano, o ukelele não era um instrumento originário daquele arquipélago, mas sim uma criação portuguesa, inspirada no velho cavaquinho lusitano).

(Fábrica de gasosas Ásia, no Porto Interior, onde abundavam murais publicitários de outros refrigerantes)

Imitavam-se, enfim, as novas estrelas norte-americanas, tais como o James Dean, Elvis Presley, Pat Boone, Marlon Brando e Elizabeth Taylor, entre outros que revolucionaram na altura o comportamento dos jovens de quase todo o mundo. O tal “rock and roll” tinha também chegado a Macau.

A salsaparilha e a laranjada da marca “Ásia”, bebidas gasosas que tinham a sua fábrica instalada no Porto Interior e anúncios sugestivos em locais — de onde ainda não foram totalmente apagados —, depararam com concorrência no mercado, como a Coca-Cola, a Seven-Up, a Schweppes, Green Spot, etc., que eram acompanhamento do então recém-chegado hot dog (hoje vulgarizado em “cachorro”).

O Restaurante Belo, situado a meio da Av. Almeida Ribeiro, foi o primeiro estabelecimento a introduzir essa “iguaria” norte-americana nos hábitos da população local, enquanto o Riviera incluía no seu cardápio o club sandwich..Habituados ao leite condensado, porque as poucas vacas residentes tornavam o leite fresco um produto elitista de preço proibitivo, os macaenses viram-se de repente inundados de marcas novas: o comum “Quatro Vacas”(em chinês) passou a disputar mercado com a condensada “Águia” (Eagle) e o evaporado “Cravo” (Carnation), produtos importados que hoje estão enraizados nos hábitos da população local, tal como as “Cream--Crackers” da Jacobs e as bolachas “Marie”. 

Os jovens trocaram as suas bicicletas por carros modernos, por motocicletas e lambretas Vespa, consoante as posses dos pais, para “fazer vista” nas ruas calmas da cidade.

Alguns comerciantes mais atentos aos acontecimentos, chegaram à conclusão que o que faltava aos adolescentes eram locais para se divertirem.

Assim, nasceram os “cafés” ao ar livre na Praia Grande, em aterros já então consolidados (porque iniciados em 1925) e onde está presentemente o Hotel Lisboa. Eram cerca de uma dezena, separados uns dos outros por vedações de cordame ou de bambú. Cada qual dispunha da sua barraca-cozinha, mesas e cadeiras de madeira ou vime e uma juke box, que tocava discos de 45 rotações. Os jovens chegavam nas suas Vespas ou outros veículos e vinham ouvir música rock, namorar, comer, beber e conversar.


Produção musical “localizada”

Hong-Kong lançara já um disco de uma das suas primeiras cantoras. Chamava-se Marilyn Palmer e a sua canção de título sugestivo (Kiss me, Honey ) era tocada com frequência nas juke boxes desses cafés e nos gira-discos caseiros de cada família, emparceirando com os melhores êxitos de Elvis Presley, de Bill Healey e “the Comets”, Fats Domino, Jerry Lee Lewis, etc.

Como o rock n´roll tivesse agradado ao ponto de suplantar os ritmos anteriores, os jovens macaenses sentiram a necessidade de ter a sua banda do género, para poder “estar na moda”. O primeiro grupo de “roqueiros” (precisamente “The Rockers”), era formado por Johnny Reis, Giga Robarts, Carlos (Sonny) Gomes e os irmãos Nuno e Alberto de Senna Fernandes.

Feitos os ensaios para aquecimento, iniciaram os contactos para se poderem apresentar em público. Mais uma vez a gerência do Hotel Riviera, perante o entusiasmo desses jovens

Cinema Império (Broadway) foi ponto de encontro da juventude macaense

músicos e o interesse da população local, decidiu organizar matineés dançantes aos fins de semana.

E foi naquele salão de dança que os rapazes dos “Rockers” se estrearam, trajando uniformes impecáveis de camisa branca, gravata preta, e blazer vermelho com o monograma “R” bordado a fio dourado ao peito, com calças e sapatos pretos. Não havia dúvida... estava ali de facto um conjunto musical norte-americano em pleno palco do Riviera, a tocar para um público jovem que dançava com vestimenta da última moda.

Enquanto isso, os cafés do aterro da Praia Grande continuavam a funcionar apenas nas noites de Verão, pois o frio do Inverno o desaconselhava, além daquela área ser destinada anualmente à Feira Popular, composta por barracas de comidas, jogos, exposições e venda de mercadoria variada, com

divertimentos para todas as idades, numa espécie de parque de diversões.

Foi então, que a Amélia Xavier, macaense, teve a brilhante e reconfortante ideia de inaugurar o seu próprio “Café Amélia”, em ambiente fechado, para entretenimento dos adolescentes “em todas as estações” do ano. Obviamente, os “Rockers” foram contratados para abrilhantar as noites dançantes de fim-de-semana, enquanto as outras ficavam por conta das juke box. No entanto, o Hotel Riviera não deixou de ter as suas sessões de matinée com o mesmo (e único) conjunto de rock and roll, porque a juventude era numerosa e animada, sendo freguesia para qualquer hora do dia e da semana. E esses músicos não só se apresentavam nos dois locais, como também compareciam em festas particulares e chegaram a gravar vários programas para a “Rádio Vila Verde” de Macau, propriedade do dr. Pedro José Lobo.

Ruby de Senna Fernandes, uma das poucas intérpretes locais do fado

e música ligeirana década de 60, acompanhada pelos “Rockers”

“Tai Loy”, o barco da carreira para Hong Kong atracava na Ponte-cais 16, onde também funcionaram restaurantes e a boite “Helena”

 

Melómano e compositor

Pedro José Lobo1, além de ter sido o chefe dos Serviços de Economia de Macau durante largos anos, desde antes do eclodir da II Guerra até aos anos 50 (cargo bem importante na altura… ), era economista hábil, empresário bem sucedido, e também amante fervoroso da música clássica e ligeira.

Decidiu pois, organizar a primeira e única orquestra sinfónica macaense de que houve notícia (pelo menos até à década de 80), convidando dezenas de músicos nativos e seus parentes de outras cidades da região, para se colocarem sob a sua batuta. O meu avô materno (Carlos Gomes), que era então ainda gerente do Hotel Riviera, foi também incluído no agrupamento, bem como o Bernardo Rosário e seu filho Demétrio (do conjunto musical do Clube Melco), o Américo Vital (que pertenceu ao grupo de Alderico Viana), o Alberto Pereira (gerente da Melco), o Tony Costa (oriundo da cidade de Xangai), e o Conde Bernardino de Senna Fernandes, entre outros.

O “maestro” Pedro Lobo, ainda não satisfeito com os músicos, decidiu formar também um grupo coral e de bailado, para interpretar as operetas que ele e Bernardo compunham. Foram assim incluídos Américo Córdova, Maria Marçal, Constâncio Araújo (genro de Pedro Lobo) e

muitos outros. Os ensaios e concertos realizavam-se no vetusto Teatro D. Pedro V (construído em 1858). A orquestra era tão afinada que ainda hoje a música ecoa na minha memória, especialmente a interpretar o “Eternally”, composto por Charlie Chaplin para o seu filme “Limelight” (Luzes da Ribalta), que a Rádio Vila Verde transmitiu diariamente durante meses.

Pisaram o palco do D. Pedro V nessa época, trazidos pelo Círculo de Cultura Musical patrocinado por Pedro Lobo, muitos artistas de renome internacional que levaram à cena as óperas “Barbeiro de Sevilha”, “Filha do Regimento”, “Conto de Luxemburgo”, e nomes como Helen Traubel, Julius Katchen, Ruggiero Ricci, etc. O teatro acolheu também concertos dos “Pequenos Cantores” do Colégio D. Bosco — um grupo coral de rapazes na tradição do Coro dos Meninos de Viena — que muito deveu ao falecido Padre Brianza, récitas e comédias teatrais em patuá macaense da autoria de José (Adé ) dos Santos Ferreira, e chegou a ser usado para cerimónias de entrega de troféus aos vencedores do Grande Prémio de Automobilismo de Macau.


Fado em Macau

Num panorama bem variado de gostos por música ligeira, clássica, corais, rock e a música de dança das bandas nos hotéis, começou a ouvir-se então a voz talentosa da primeira fadista macaense de que a minha geração se recorda: Ruby de Senna Fernandes. Amante da música, tal como os seus irmãos Nuno e Alberto (dos “Rockers”), Ruby chegou mesmo a ter “aulas” de fado com a famosa Amália Rodrigues durante a sua estada em Portugal.

O fado não tinha aqui muita divulgação naquela época, à excepção de alguns raros programas na rádio Vila Verde e, posteriormente, na Radiodifusão de Macau que difundia intérpretes de música portuguesa, entre os quais fadistas. Foi sómente na década de 70, com a inauguração do Hotel Lisboa, da S.T.D.M., que se contrataram fadistas de Portugal para trabalhar no “Galera”, um restaurante luxuoso e típico, mas de comida europeia, onde se serviam bons vinhos portugueses e um caldo verde razoável. A própria Amália Rodrigues participou numa semana de “Abril em Portugal”, realizada no restaurante

Portas-do-Sol do mesmo hotel-casino.


Na China, música chinesa … mas não só !

Mas falemos dos músicos chineses daquela altura. A comunidade local de etnia e cultura chinesa tinha também os seus grupos musicais de instrumentos típicos, que incluia o Pei-pá, o Erhu, o Sheng (“órgão de bola”chinês), etc. Mas os mais interessantes eram trios ou duetos ambulantes, geralmente aparentados, que cantavam e tocavam em redor das mesas dos restaurantes chineses, recebendo pagamento directo dos fregueses. Os restaurantes típicos dos hotéis Central e “Grand” (ou Kuoc Chai) eram os seus locais predilectos, além do restaurante e casa de chá Lok Kuoc (ou “Seis Nações”— o mais antigo estabelecimento do ramo, na Rua 5 de Outubro e encerrado em finais da década de 80), o Hotel Ng Yeung (“Cinco Cabras”) e outros que se situavam nas proximidades da Rua da Felicidade.

Interpretavam habitualmente apenas música chinesa, mas havia um “famoso” dueto de viola e banjo, o Fei-Kei Lám (“Azeitona Voadora”), que incluía no seu repertório alguns números norte--americanos, como o Oh, Susannah! e Spanish Town.Os dois músicos executavam apenas números instrumentais enquanto iam vendendo aos clientes a suas azeitonas chinesas (lám) embrulhadas em papel celofane. E o sugestivo nome deviam-no ao modo como entregavam a “mercadoria”— lançando-a para as varandas ou pelas janelas das casas dos fregueses que, ao ouvi-los, lhes compravam as azeitonas. Assim, foram percorrendo a pequena cidade, de casa em casa, rua em rua, todos os bairros, anos a fio …

A ópera cantonense (Üt-kêk), enchia as noites de Macau com as vozes estridentes e arrastadas dos seus sopranos sempre que havia espectáculos nas festividades chinesas, com grandes aglomerações de público nos barracões de bambú e madeira junto aos templos. Mas era igualmente veiculada pelas estações chinesas de rádio, a horas certas da programação, pelo que se ouvia ao entrar nas lojas, das casas de sopas de fita, nos alojamentos dos criados, e até nos decrépitos “transistores” dos riquexós folgados na marginal.

Fala-se também de um chinês cego que narrava--cantando “estórias” no canal chinês da Rádio Vila Verde. O chamado Máng Kung (“velho cego”) deixou escola no cantar, e obteve tanto sucesso que acabou por ser contratado para a Radio Hong-Kong, onde foi trabalhar juntamente com a sua esposa--produtora-empresária, também cega. (Parte do repertório ainda se ouve, com alguma sorte, quando nos cruzamos com algum cego instalado no passeio da Almeida Ribeiro a tocar, a cantar e a esmolar). 

Por razões várias, todos esses artistas e músicos desapareceram do cenário local a partir do final da década de 50. Uns mudaram de vida, e outros saíram de Macau. Deixaram, sem dúvida, uma grave lacuna no folclore macaense.


Virar o disco, tocar o mesmo …

Por essa altura, os cabarés dos hotéis Central e Grand Hotel (Kuoc Chai) já se encontravam em fase de decadência, assim como o salão de danças do Hotel Riviera, que voltou a ser apenas um restaurante comum, embora com uma pastelaria afamada. Os músicos que trabalhavam nesses locais saíram de Macau ou simplesmente mudaram de profissão.  Abeirava-se o fim do monopólio dos casinos da Tai Hing Company.

Uma nova geração, mais jovem que a dos componentes dos Rockers, criou vários outros conjuntos musicais de rock e começou a exibir-se em festas escolares e particulares.

Adolescentes que moravam em residências mais espaçosas, organizavam parties, quase sempre nas noites de sábado, dançando-se ao som de discos de 45 rotações. Ocasionalmente actuava algum conjunto musical amador. Serviam-se gasosas e sanduíches durante o intervalo, que acontecia à meia-noite, e as festas terminavam por volta das duas horas da madrugada, quando os casais de namorados regressavam às respectivas casas, percorrendo as ruas calmas e desertas.  O par (hoje casal) Frances e Jacinto Placé era o mais requisitado para essas reuniões, porque além de serem dançarinos que dava gosto ver rodopiar, eram também a “alma” da festa. Alguns anfitriões mais “poupados” ofereciam gasosas “Ásia”, por serem mais baratas e de embalagem mais generosa. A geração não fora brindada com o privilégio das lambretas ou outras motorizadas, ao contrário da antecedente, porque a vida estava cara.

Mas ainda assim encomendavam as suas botas de couro, ou camurça, na Sapataria A Veng, da Rua do Campo, e as camisas e calças vinham de pequenas alfaiatarias que pertenciam, na grande maioria, a ex-alunos do Instituto Salesiano. 

A formação dos conjuntos musicais dessa geração era muito instável, pelo que se torna difícil mencioná-los a todos e com correcção. No entanto, sem saltitar muito estavam músicos como Roque Cruz, Leonardo (Nado) Amarante, Roberto Badaraco, Tony Oliveira, Toninho Lopes, Rogério Mendes, José Achiam, António (Sonny) Gomes, Rui Ramalho e Rogério Fernandes.

O Tony Oliveira participava com seus irmãos num conjunto que mais tarde se tornou famoso em Hong-Kong: “The Satellites”. Enquanto moraram em Macau, ensaiavam numa sala da sua residência, que se situava na Rua Abreu Nunes, quase à esquina da Calçada do Gaio. E quem por ali passasse na altura, não resistia a “marcar-compasso”, ao ritmo da boa música.

Outra família que formava o seu próprio conjunto musical era a do Adão Espírito Santo, ex-músico das tunas carnavalescas. Transmitiu aos dois filhos mais velhos (Rui e Zeca) a arte de tocar instrumentos de corda, e começaram as suas apresentações em casas de amigos, a eles se juntando o cunhado de Adão, Vasco Guilherme. Tocavam marchinhas e valsas do repertório tradicional das tunas e mataram muitas saudades, deixando outras tantas a muita gente. 

Assim aconteceu, também, com a família do Maco Amante, ex-integrante das tunas. Tanto ele como o filho Alberto tocavam viola, enquanto o filho mais velho Tony marcava o ritmo num bongo de côr azul celeste e o mais pequeno, o Dica, cantava a sua canção favorita: Tintarella di Luna , de Marino Marini.

Além dos parties e da actividade nas bandas musicais, os jovens entretinham-se bem com os Request — um programa de discos pedidos na Rádio Vila Verde de Macau, que fazia sucesso. Tais programas primavam pela difusão das dedicatórias que alguns radiouvintes entregavam por escrito no gabinete da emissora onde trabalhava o paciente Mesquita. Depois os locutores Johnny Reis (dos Rockers) e o seu irmão Walter veiculavam aos microfones as dedicatórias, muitas delas com nominhos e pseudónimos criativos, ou tão exóticas como “de alguém para Mica” e “de Vasco para alguém,” tocando em seguida a melosa canção pedida.

Era a fase do maior dinamismo dos fãs-clubes (Elvis Presley, Pat Boone, Ricky Nelson, etc.) formados por admiradores dedicados e ferrenhos, sobretudo as moças, que criavam um tal clima de rivalidade entre si que chegavam, por vezes, a “vias de facto”…

Antes da transmissão dos Request ouvia-se o “Terço do bairro”, que era rezado por um sacerdote e um grupo de fiéis (que se deslocavam aos próprios estúdios da emissora, na Francisco Xavier Pereira), fazendo-o em chinês e em português. Foram programas com grande audiência durante muitos anos, até à chegada dos primeiros aparelhos de televisão ao território, nos anos 70, que captavam com facilidade o sinal de todos os canais da TV de Hong Kong, tal como já era possível, de há muito, ouvir a Radio Hong Kong e a Commercial Radio da então colónia britânica, para além das estações chinesas.

Fotos acima: Coro dos Pequenos Cantores do D. Bosco, com o Padre Brianza (Liceu, Abril de 1967)

 

Padres, bandas e cantores

Nessa época, já não existia a Banda da Câmara Municipal regida pelo Constâncio da Silva e posteriormente pelo Placé. Em seu lugar havia a Banda da Polícia de Segurança Pública, que era formada por elementos daquela corporação, na maioria antigos alunos do Colégio Dom Bosco.

Esse colégio, por sua vez, teve a sua própria banda, onde muitos futuros músicos aprenderam o primeiro solfejo. No início, o padre Albino (o decorador do salão de festas do Clube de Macau, antes da sua ordenação) dava aulas de música e regia a banda até ser substituído pelo padre italiano César Brianza.  O padre Brianza, sobejamente conhecido, além de reger a banda do colégio, passou a dirigir também a Banda da Polícia e fundou o coral dos “Pequenos Cantores”, que chegou a dar concertos na Europa e em vários países do Extremo Oriente. O coral durou apenas enquanto o Padre Brianza o regeu e teve um final melancólico nos anos 70. A sua última apresentação foi no Cemitério de S. Miguel Arcanjo, durante o cortejo fúnebre do sacerdote-músico, acompanhado por numerosos amigos e admiradores.

Também o Colégio e Instituto Salesiano possuía a sua banda de instrumentos de sopro, que acompanhava procissões religiosas e fazia apresentações noutros colégios. Mas era a Banda do Colégio D.Bosco que participava em paradas da Mocidade Portuguesa e nas efemérides comemorativas. 

Uma única tuna carnavalesca sobrevivera nos anos 50-60: a do “Negro-Rubro”, conhecido agrupamento oficial do Corpo de Bombeiros. A sua formação era quase exclusiva de elementos daquela corporação e as suas apresentações já não decorriam nos locais tradicionais das décadas de 30 e 40.  Muitos dos seus músicos participavam também da orquestra do dr. Pedro José Lobo.


Os “Casacos Cinzentos”

No início da década de 60, havia três conjuntos musicais de rapazes com idades que iam dos 12 aos 17 anos. Uma geração ainda mais tenra que a anterior. 

O “Irmãos Espírito Santo” como o nome indica, integrava os cinco filhos de Adão Espírito Santo e era dirigido pelo próprio.

O “Colorful Diamonds”, era composto pelos irmãos Marinho (António e José), pelo Vasco Santos, o meu irmão Ricardo e eu.

O terceiro conjunto chamava-se “The Grey Coats”(Casacos cinzentos), e agrupava os irmãos Branco, Fernando (Nano) e Carlos (Bébé); o Tonim Pinto Marques e o João (Pom-Pom ) Magalhães. 

O primeiro conjunto dedicava-se estritamente ao género instrumental, enquanto o segundo executava números vocais e instrumentais; e o terceiro era um conjunto sobretudo vocal. Não havia portanto, rivalidades, já que o gosto do público era muito variado. 

Após alguns meses de ensaios, os “Colorful Diamonds” apresentaram-se pela primeira vez ao público no ano de 1961, num bazar do Colégio Santa Rosa de Lima. As barracas de comidas e jogos foram montadas nas alas laterais da sua longa escadaria de pedra, ficando o palco no topo. Fomos muito aplaudidos durante toda a apresentação de uma hora, mas desconfio que não teria sido tanto pela música, mas mais pela nossa pouca idade.  Aquela tarde representou para nós o “lançamento” necessário, porque surgiram logo inúmeros convites para nos apresentarmos em outros colégios e festas particulares.

Os “Heartbeats”: António Lagariça, Roberto Badaraco, Vítor Marques, Badaraco, Alberto Amante

O quinteto dos “Irmãos Espírito Santo”, também deu o seu primeiro passo nessa altura e tornou--se logo conhecido. Esses músicos vestiam uniformes confeccionados pela mãe que se assemelhavam a trajes de toureiro. Também as suas três primeiras guitarras foram feitas artesanalmente pelo pai, pelo tio e os próprios rapazes, à excepção da montagem da parte eléctrica. Até a bateria era de fabrico próprio, bem como os amplificadores. Enfim, além de músicos e artesãos talentosos, eram uma família muito unida sob comando do Adão Espírito Santo e a supervisão do Vasco Guilherme.

Os rapazes dos “Grey Coats”, após muitos ensaios dirigidos pelo Leonel (Neco ) Barros, lançaram-se na carreira trajados, como o nome indica, em blazers de côr cinzenta debruados a negro na lapela (por acaso cedidos pelos “Rockers”, que tinham dois uniformes). O Tonim Pinto Marques tocava guitarra para acompanhar, e o Neco Barros, além de se encarregar dos arranjos musicais do conjunto vocal, participava como contrabaixista, intercalando os compromissos que mantinha, como baterista, nos “Four Aces” (formado pelos antigos “Rockers”).  Neco substituira o meu tio Sonny, emigrado para Hong-Kong, assim como o Mário Sequeira ocupou na altura a vaga do Giga Robarts. Como se isso tudo não bastasse, o Neco tornou-se também “professor de música” dos “Colorful Diamonds”. Dos “Grey Coats” há ainda hoje memória das suas belíssimas interpretações, entre outras, de baladas e canções dos famosos Everly Brothers, Let it Be Me e Bye Bye Love , nas concertadas vozes do Nano, do Bebé e do Pom-Pom (este mais tarde também famoso pelas interpretações de Your Cheating Heart e Jambalaya do Hank Williams).

O quarteto “Four Aces” animava festas e bodas da elite, assim como os bailes nos clubes e nas residências “da alta”, porque era um conjunto de músicos experientes e com repertório para gostos adultos. Chegou também a acompanhar o coro dos Pequenos Cantores do Colégio D. Bosco em alguns dos seus concertos, providenciando apoio instrumental às suas interpretações da “Tia Anica do Loulé”, do Kanimambo, e de “Sempre que Lisboa canta”, entre outras.

Poucos meses depois da criação dos “Colourful Diamonds”, o Vasco Santos, saiu porque se mudou para a colónia britânica, onde foi trabalhar no Hongkong and Shanghai Banking Corp., o empregador de muitos rapazes de Macau. Incerto da sobrevivência do grupo, o Neco Barros transferiu o meu irmão Ricardo para os “Grey Coats”, deixando-nos aos três — os irmãos Marinho e eu —, abandonados à sorte do destino.

“Colourful Diamonds” em 1961: José e António Marinho, Rigoberto do Rosário, Vasco Santos e Ricardo Rosário.


Mas decidimos seguir adiante com o nome de “Colourful Diamonds”. Foi nessa época que surgiu a minha primeira oportunidade para me tornar cantor-solista. O António Marinho era muito acanhado e o seu irmão José prefiria os seus solos de guitarra. Vai daí que eu, com 13 anos de idade, por força das circunstâncias, me tivesse de colocar à frente do microfone. 

O primeiro convite que recebemos foi do Eduardo Jacinto, que presidia ao clube “Macaense” (antigo Clube Melco) situado no bairro da Areia Preta. Foi noite de estreia para o nosso trio e um êxito de bilheteira. Apresentaram-se também nessa noite de sábado, os “Irmãos Espírito Santo”, animando ainda mais o baile. 

Os cinco irmãos apresentaram o seu repertório instrumental, enquanto nós interpretámos a canção “Little Darling”, do conjunto norteamericano “The Diamonds”, o que fez com que o público presente me brindasse com comentários de “Atrevido!” e “Que criança audaciosa!”.  Ao que parece, terá sido a primeira vez em Macau que viram uma criança cantar em público um solo de música “pop”.

Enquanto isso, os “Grey Coats” apresentavam-se em festas de residências da elite e em banquetes de casamento no Hotel Riviera e no Clube de Macau, tendo chegado a ser contratados pelo Clube de Recreio de Kowloon para uma noite de gala, em que esteve presente quase toda a comunidade portuguesa de Hong Kong.

O conjunto musical italiano “Giancarlo and his Combo”, fazia então furor em Hong-Kong, especialmente com a canção Al-di-la (lançada por Emilio Pericoli, em finais da década de 50). Era portanto natural que não deixasse de constar da lista dos artistas convidados para uma apresentação em Macau: o espectáculo decorreu no antigo ginásio do Liceu Nacional Infante D. Henrique, à Praia Grande, e para o efeito foram também contratados os “Four Aces” e os “Grey Coats”. No entanto um desentendimento, naquela noite, do Neco Barros (dirigente do “Grey Coats’ e baterista dos “Four Aces”) com a organização do espectáculo, levou à sua retirada, assim como a dos rapazes dos “Grey Coats”, ficando o público sem ouvir as canções românticas que esperava.

Quanto aos “Four Aces”, deitaram mão ao baterista do Giancarlo, para poderem actuar…

Os “Grey Coats” (1964) à espera de actuar no Clube de Macau: Carlos e Fernando Branco, João Magalhães e (em pé) Tonim Pinto Marques

No final do ano de 1962, enquanto os “Irmãos Espírito Santo” mantinham os mesmos elementos, sob a direcção do pai Adão, os “Grey Coats” sofriam uma mudança radical, tanto na composição como no género de música que interpretavam. Os seus novos componentes eram: Leonardo (Nado) Amarante, Toninho Lopes, Diamantino Pereira (de Portugal) e Jackie Mahommed (de ascendência árabe). 

Dos “Colourful Diamonds”, com a partida do José Marinho para Hong-Kong, sobrámos apenas eu e o seu irmão António. Foi então que se juntaram ao grupo o Manuel Costa, o Herculano (Alou ) Airosa e o Humberto (Sonny) Fernandes. Transformámo-nos num conjunto vocal e o Neco Barros voltou a dirigir-nos musicalmente.

Nessa época, os “Four Aces” actuavam no restaurante da Pousada de Macau, que se situava na Rua da Praia Grande, mesmo ao lado do Palácio do Governo. Esse restaurante devia muito a fama à sua “Galinha Africana” — uma criação do chef Américo Ângelo (com curso feito na Europa) — e à sua hospitalidade. A obra-prima da gastronomia macaense foi posteriormente adoptada e alterada por muitos outros cozinheiros dos hotéis de cinco estrelas e restaurantes do território, sendo hoje uma pálida amostra do que o Ângelo concebeu. 

Quanto a conjuntos musicais, outros foram surgindo, como por exemplo o “Little Devils”, que agrupava macaenses e portugueses oriundos de Xangai (os irmãos Collaço e Carion). Essa banda teve uma vida bastante curta, devido à imigração de parte dos rapazes para o Brasil. Sobrando apenas o Alberto Amante (filho do Maco Amante), e o João (Ateu) Gomes, foram juntar-se ao Maco e ao Cândido Jorge, daí resultando um novo agrupamento: os “Lovers”.

Pousada de Macau, famosa pela sua cozinha macaense e ambiente acolhedor, onde também havia boa música


Manter o ritmo em Hong Kong

Os irmãos Oliveira (José, António e João), que já se encontravam emigrados e a trabalhar no Hongkong and Shanghai Banking Corp., lançaram-se como profissionais nos clubes nocturnos daquela cidade. Os três irmãos beneficiaram da participação de Ray Cordeiro como baterista, porque Ray era sobejamente conhecido como locutor da Rádio Hong-Kong, e como tal não tiveram dificuldades quanto à divulgação do seu nome : “The Satellites”.

Fizeram tanto sucesso naquela cidade, que até foram contratados pela discográfica Diamonds Records para gravar um single de 45 rotações, que embora não contendo originais seus, incluíam arranjos musicais da sua autoria. A venda foi um êxito e a canção Jamaican Mash foi difundida em todas as emissoras de rádio de Hong-Kong e Macau. Foram o primeiro conjunto de música “pop” com macaenses a gravar um disco comercial e de música popular. 

Em Macau, os restantes conjuntos musicais contentavam-se com apresentações ocasionais em festas escolares e particulares, executando ritmos do Twist e do Mashed Potatoes popularizados pelo norte-americano Chubby Checker e outros vocalistas.

Era a própria variação de ritmos urbanos que marcava a diferença.


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Agradecimentos à Revista Macau, Rigoberto Rosário Jr. e Cecília Jorge


Publicação Setembro 2011