Michael Rogge

Holandês, natural de Amsterdam, Michael Rogge viveu em Hong Kong de 1949 a 1955, e em 1961 retornou para uma estadia de 1 mês.  Durante este tempo, visitou Macau, onde fez vários vídeos com imagens que nos trazem muitas saudades da terra.  É um entusiasta no registro de imagens, especialmente em filmagem, além da fotografia, mas nunca atuou profissionalmente, mantendo-se a nível amador até os dias de hoje (Setembro 2010), já nos seus 81 anos de idade.  Mesmo assim, obteve reconhecimento internacional pelo seu trabalho, aparecendo na tv holandesa, a History Channel oriental, entre outros meios de comunicação.  Encontrou no YouTube, um jeito de divulgar o seu trabalho, publicando centenas de vídeos convertidos dos seus filmes de rolo.  Hoje ainda filma, mas já com aparelhagem moderna e em alta definição.  O tema, como sempre foi, ainda se baseia em paisagens e registos gerais das suas viagens e passeios.  Não se rendeu ao tempo e à idade.  Adaptou-se à modernidade para poder continuar a praticar o seu passatempo favorito.  Michael Rogge tem uma característica, também percebida entre os macaenses.  Sentiu-se muito desiludido quando ao revisitar Hong Kong em 1989, viu uma mudança radical da cidade, fazendo-o a ter dificuldades para reconhecer os lugares vividos nos anos 50.  Disse que na época ainda não sentia Macau tão modificada, mas depois teve notícias que tornou-se numa Las Vegas.  Em vista, prometeu a si que nunca mais voltaria para Hong Kong.  Queria guardar a memória limpa daquela Hong Kong de outrora.  Hoje, a cidade é uma outra, irreconhecível, pensava ele.  Será que você não sentiu isso uma vez na sua vida?  Sente falta daquela Macau de antigamente? Talvez isto explica a necessidade de divulgação de páginas tal como esta, Memórias de Macau, mas não podemos desprezar e nem condenar o necessário e óbvio progresso de Macau.  Saibamos conciliar o apreço pela memória e a modernidade, e que no final, a modernidade saiba respeitar a memória, sem destrui-la.

*** O PMM obteve autorização do Michael Rogge para divulgação dos seus videos e as imagens obtidas deles, com atribuição da sua autoria.  Dá destaque aos vídeos de Macau e de Hong Kong, esta última que também faz parte da memória macaense, pois muitos filhos da terra lá foram trabalhar formando novas famílias, além do que já existia uma colónia de oriundos de macaenses, famílias antigas!  Sem falar que viajávamos para Hong Kong, a turismo ou visita a familiares, com certa frequência.

Em vista, se alguma imagem for igual à divulgada noutra publicação da internet será mera coincidência, pois o PMM somente publica fotos obtidas diretamente dos vídeos autorizados por Michael Rogge. O PMM não teria copiado a foto de outro site ou blog.

Em 2009, Michael Rogge concedeu uma entrevista ao repórter do jornal de língua inglesa de Hong Kong, South China Morning Post (SCMP), que abaixo é transcrita integralmente em inglês, e traduzida para português pelo autor do PMM: 


SCMP - Post Magazine 15th March 2009 (15/Março/2009)

The amateur photographer and filmmaker tells Nadine Bateman about Hong Kong of yesteryear and why he has no desire to return.


PHOTOGRAPHIC MEMORY I grew up in Amsterdam, the son of an explorer who mined for oil, gold and diamonds in Indonesia. My father loved taking photographs of his exploits. One of my first memories is of him turning the crank of a home movie projector. I inherited his enthusiasm – and the projector – when I was 10. But the second world war and my parents’ moderate means [my father had lost all his money in the Wall Street crash of 1929] prevented me from acquiring a movie camera. Then, in 1942, I was given a Kodak box camera and in 1947, a Kine Exakta camera. From my pocket money, I bought a second-hand 9.5mm movie camera in the same year.


IN THE MONEY - I had wanted to join a film company or continue studying after leaving school but I needed to earn money to support my family. So I went to work for an overseas Dutch bank and I was extremely lucky to be sent to Hong Kong. I shared an apartment with two colleagues at 62 Macdonnell Road, Central, which we called ‘the mess’. The bank had an office in a Victorian building on the corner of Des Voeux Road and Ice House Street. It has since been torn down. In 1950, we moved to Marina House, Queen’s Road Central, also since demolished. I arrived as the youngest of the Dutch staff – 20 years old – and left as head of a department in 1955. One of my films [which you can see on YouTube] shows me strolling from the flat to the office.


INTREPID EXPLORER - I had little free time: I worked six days a week and every two years I got a fortnight’s holiday. But in my spare time I liked to explore the city; filming it and taking pictures. I would also go to the cinema, listen to music and write letters to the South China Morning Post.


It was in 1949 that I read a letter to the editor in the SCMP from John Blofeld, an authority on Chinese Buddhism, calling for the formation of a study group. I was the only person in the colony who answered and I visited him in Sha Tin. He in turn introduced me to Mr Woo of a law firm in Ice House Street. With Mr Woo, I visited the Pure Land and Esoteric Buddhist groups, which I believe were in Happy Valley. That’s how I was able to film Buddhist ceremonies. I was able to visit Hong Kong film sets as acting president of the Sino-British Film Group.


Once, when filming the sunrise, to have a good view from a hill top I trespassed unknowingly into military territory and I was picked up by a jeep but was released soon after they had made inquiries about me. That film won an award.


FILM FANATIC I stayed in Hong Kong from 1949 until 1955 and returned in 1961 for a month. I revisited in 1989 for one week. During those times I took hundreds of photos


and hours of film. In 1952 I was present at the formation of the Hong Kong Amateur Cine Club and I later became president. I was asked to start a film unit as there was nobody filming professionally outside of the studios. I considered it seriously but in the end I opted for the safe life in the bank, where I had already forged a successful career.


For six years [after 1955] I was stationed in Japan, where I also took many films and photos. Recently, a joint exhibition of my work and [that of] a former colleague, Hans Brinckmann, was held in Tokyo and attracted 49,000 people. The documentary films were shown in the early 60s on Dutch television in two 25-minute programmes that were titled Three Million Souls of Hong Kong and People of Japan.


PARADISE FOUND - I thought Hong Kong was Shangri-La. To me it was a dreamy place. I enjoyed its international atmosphere and I was particularly fond of visiting Kowloon. The Radio People was the name of a well-known hi-fi shop on Nathan Road where the owner was an enthusiastic hi-fi fan. He introduced me to LP records and predicted (to my utter disbelief) that all 78rpm records would disappear. [On his recommendation] I traded in my gramophone for a record player that played LPs. It was liberating not to have to turn the record over every five minutes.


Then there was Harris Book Shop, just around the corner [from the office] in Ice House Street. The owner was a rotund bookworm, always struggling with the heat [and] surrounded by an odd mixture of books. [The store was] full of surprising finds. It was the sort of shop that was pushed out of business in the course of economic expansion.


Then there were the beaches, of course, the trips into the countryside and the many nice people I met. Never having left my home country before, it was all a great adventure. Also, coming from an occupied country and having suffered the ‘hunger winter’ of 1944-45 – when I left Holland some goods were still rationed – it seemed in Hong Kong I could buy anything with the good salary I was earning.


… AND LOST - When I returned to Hong Kong in 1989, on a trip with my adopted son, I did not recognise anything. I cannot recall any site being the same: possibly Cat Street,

Ladder Street and the Tiger Balm Garden. But Kowloon, Yau Ma Tei typhoon shelter, Aberdeen, Lantau Island: its monastery, the waterfronts … all had changed. I also went to Macau, which had not changed that much at the time but I hear it is almost like Las Vegas now. I have no desire to return; 1989 was enough. Without wishing to be unkind, the image of the Hong Kong of my memories was shattered. I realised it had all gone.


Tradução de Rogério P.D. Luz:

O cinegrafista e fotógrafo amador conta a Nadine Bateman sobre a Hong Kong de antigamente e o motivo de não querer mais voltar para lá.


MEMÓRIA FOTOGRÁFICA – Nasci em Amsterdam, filho de um explorador de mina de óleo, ouro e diamante na Indonésia.  Meu pai adorava tirar fotografias das suas explorações. Uma das minhas primeiras lembranças é dele girando a manivela de um projector de cinema.  Eu me envolvi no passatempo dele – e do projector – quando tinha 10 anos.  Mas a 2ª. Guerra Mundial e as modestas economias dos meus pais (meu pai perdeu todo o seu dinheiro no desastre financeiro de Wall Street em 1929) impediu-me de comprar uma máquina de filmar.  Então, em 1942, ganhei uma câmera de filmar da Kodak e em 1947, uma câmera Kine Exakta.  Com as minhas economias, comprei uma câmera usada de filmar 9.5 mm no mesmo ano.


COM DINHEIRO – Queria associar-me a uma empresa cinematográfica ou então continuar a estudar depois de terminar os estudos, mas precisava trabalhar para sustentar a família.  Assim fui trabalhar num banco holandês no exterior e com muita sorte fui enviado para Hong Kong.  Morei com 2 colegas no Macdonnel Road nº 62, área central, que a chamávamos de “a confusão”.  O banco tinha um escritório na edifício Victorian na esquina com a Des Voeux Road e Ice House Street. Foi desde então demolido.  Em 1950, mudamos para Marina House, Queen’s Road Central, também demolida. 


Ingressei no banco como o mais jovem dos empregados holandeses – 20 anos de idade – e tornei-me o chefe do departamento em 1955.  Um dos meus filmes ( que pode ser visto no YouTube) mostra eu caminhando da minha residência  para o escritório.


Foi em 1949 que fiz saber ao editor do SCMP, John Blofeld, que uma autoridade no budismo chinês, convocando a formação de um grupo de estudo.  Fui a única pessoa na colônia que atendeu ao pedido e o visitou em Sha Tin.  Ele, em agradecimento, apresentou-me ao Sr. Woo de um escritório de advocacia no Ice House Street.  Na companhia do Sr. Woo, visitei os grupos da Terra Pura e Budista Esotérico, que penso estava no Happy Valley.  Foi assim que consegui filmar as cerimônias budistas.  Foi me possível visitar os estúdios de filmes de Hong Kong na qualidade de presidente do Grupo Cinematográfico Anglo-Chinês.


Houve uma ocasião em que, ao filmar um nascer-do-sol, na tentativa de obter uma melhor visão, sem querer, ultrapassei a zona militar e fui preso por uma patrulha motorizada. Somente fui liberado depois de um interrogatório.  Este filme acabou sendo premiado.


CINE MANÍACO – Vivi em Hong Kong de 1949 a 1955, e retornei em 1961 para uma estadia de um mês.  Revisitei-a em 1989 por uma semana.  Durante todo esse tempo, tirei centenas de fotos e outras centenas de horas de filmagens.  Em 1952, participei da formação do Clube Amador de Cinema de Hong Kong, e mais tarde fui eleito presidente.  Fui convidado para formar uma equipa de filmagem, porém não havia quem filmasse profissionalmente fora dos estúdios.  Refleti muito a respeito, mas no final, acabei optando por uma vida profissional mais segura no banco, onde já tinha conseguido formar uma bem sucedida carreira.  Durante seis anos (depois de 1955) trabalhei no Japão, onde fiz muitas filmagens e fotografias.  Recentemente, uma exibição conjunta do meu trabalho de um ex-colega, Hans Brinckmann, foi realizada em Tokyo e conseguiu atrair um público de 49mil pessoas.  Os documentários foram exibidos no início dos anos 60 numa emissora de televisão holandesa, num programa de 25 minutos intitulado Três Milhões de Almas de Hong Kong e o Povo de Japão.


PARAÍSO ENCONTRADO – Pensei que Hong Kong fosse Shangri-lá.  Para mim era um lugar de sonhos.  Eu pude desfrutar do seu ambiente internacional e gostava imenso de visitar Kowloon.  A Rádio do Povo era o nome de uma famosa loja de som no Nathan Road, onde o proprietário era um devotado fã de som.  Ele apresentou-me à gravadora LP e previu (para minha surpresa) que todos os discos de 78rpm iriam acabar.  Seguindo o seu conselho, troquei o meu gramophone (espécie de aparelho de som antigo) por um aparelho de som que tocasse LPs.  Era uma delícia não ter que trocar o lado do disco a cada 5 minutos.


Aí então, havia a livraria Harris Book, logo na esquina do escritório na Ice House Street..  O seu proprietário era um fanático por livros, sempre a resmungar do calor e cercado de uma estranha mistura de livros.  A livraria era recheada de achados surpreendentes.  Era o tipo de loja que faliu em decorrência do progresso econômico. 


Também havia praias, e com certeza, havia as viagens para as cercanias onde conheci muita boa gente.  Como nunca havia deixado a minha terra natal antes, para mim tudo foi uma grande aventura.  Ainda mais que, vindo de um país invadido e tendo sofrido da “fome de inverno” de 1944-45 – ocasião em que ao deixar Holanda alguns mantimentos ainda estavam racionados – parecia que em Hong Kong, eu poderia comprar qualquer coisa com o meu bom salário.


… E PERDI-ME – Quando voltei para Hong Kong em 1989, numa viagem com o meu filho adoptivo, eu não mais a reconheci.  Não conseguia mais reconhecer muitos lugares: possivelmente somente a Cat Street, Ladder Street e o Jardim Tiger Balm.  Mas Kowloon, o abrigo de tufão Yau Ma Tei, Aberdeen, Ilha de Lantau: seu monastério, o beira-mar ... tudo tinha mudado.  Também viajei para Macau, que ainda não tinha mudado muito naquela época, mas ouvi depois que hoje se tornou numa espécie de Las Vegas.  Não tenho nenhuma vontade de retornar para essas cidades; l989 foi o suficiente.  Sem querer ser antipático, a imagem de Hong Kong das minhas memórias ficou abalada.  Percebi que tudo se acabou !!!





Publicação Setembro 2010